Bem-vindos!!!!

Este blog foi criado para professores de 4º e 5º ano que encontram dificuldades para achar atividades. Algumas são criadas por mim e outras selecionadas dos grupos que participo. Se alguma atividade é de sua autoria me escreva para que dê os devidos créditos. Revise o conteúdo antes de utilizar. Não possuo os gabaritos. Tenho apenas as atividades.

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

De Sol a Sol


            Quando fiz sete anos, minha vó Luzia me apontou e disse:
            _ Tá na hora dele entrá pra escola.
            Minha vendeu a marmita, me comprou cartilha, caderno, lápis e tudo mais, pano para duas camisas brancas, para a calça azul; só faltou o calçado. Não fez diferença, quase todos os meninos iam de pé no chão.
            A escola era uma sala do celeiro, trinta carteiras, a escrivaninha da professora e um quadro negro que tomava a parede inteira. Dona Carolina vinha da cidade para dar aulas na charrete da fazenda, trazia jornais e a correspondência do patrão.
            O filho do campeiro, moleque levado, logo inventou de chamar dona Carolina de “dona Creolina”. Como o nome dele era Raimundo, ela botou nele o apelido de Viramundo, daí ele parou com aquela besteira.
            Para mim a escola foi um tempo bom, eu apreciava ver as letras saírem redondinhas de meu lápis:
            _ Fessora, e quando acabar a cartilha?
            _ Quando acabar a cartilha você já saberá ler.
            _ Vou poder ler Gibi? Histórias em quadrinhos?
            _ Vai.
            _ O caso é que não tenho dinheiro para comprar.
            Toda classe riu, a professora também:
            _ Então, no dia em que ler corretamente, trago uma dessas revistinhas para você.
            _ Verdade? Promete mesmo?
            _ Prometo.
            _ Dona Carolina é pra frente!
            Foi um tempo bom o da escola, apesar da palavra “carestia” sempre presente nas prosas dos mais velhos, fosse na casa do vizinho, fosse na nossa.
            Acabei o primeiro ano, fiz o segundo e quando estava para lá do meio do terceiro, setembro, com as chuvas e começo das plantações, uma noite, depois de muito cochichar com Luzia e a mãe triste, vô Juvenal tocou no meu braço e disse:
            _ Neguito, amanhã cedo cê vai com nóis pra roça. A carestia... a carestia vai obrigar ocê a trabalhar com a gente. Tenho muita pena meu filho, mas acabou a folga da escola.
            Sentado no degrau da cozinha, o prato de arroz com feijão sobre os joelhos, senti um nó na garganta, uma revolta me brotar no coração, queria arrebentar em soluços. Na casa do lado, seu Venerando criou coragem, disse para o filho menor, meu colega de escola:
            _ Ocê também Zezinho, amanhã começa a gemer na enxada.
            Do lado de cá até me senti melhor: “eu não estou sozinho na minha desgraça”. Olhei para minha vó, na beira do fogão – coava um café ralo – a mãe a chorar na porta da sala e o avô ali em pé, como a espera de uma palavra amiga.
            _ Não tem problema, vô. Não tem problema... respondi, enquanto que o meu peito parecia crescer, cheio de responsabilidades.
            No dia seguinte, o sol nem tinha aparecido e já estávamos a caminho da roça. Manhã orvalhada, dessas que a gente pisa no capim e sai com a barra da calça molhada. De sol a sol. Desde que o sol nascia até quando ele desaparecia atrás do horizonte, a gente trabalhava de sol a sol.             
                                                                      Lucília de Almeida Prado


1 – Com a ajuda do dicionário e escreva o melhor significado para as palavras de acordo com o texto:
Cartilha – ___________________________________________
Colono –  ___________________________________________
Celeiro –  ____________________________________________
Escrivaninha –  _______________________________________
Campeiro –  _________________________________________
Creolina –  _____________________________________

2 – A história é contada por uma pessoa que participa dos acontecimentos narrados. Quem é o narrador do texto?
3 – Numere a 2ª coluna fazendo a correspondência com a 1ª coluna da esquerda, de acordo com as ações realizadas:

1 – Vó Luzia
2 – Mãe
3 – Dona Carolina
4 – Filho do campeiro
5 – Vô Juvenal
6 – Seu Venerando
7 – Os colonos
8 – Neguito
(    ) Tirou o filho da escola.
(    ) Foi para a escola aos 7 anos.
(    ) Tocou no braço de Neguito, dizendo-lhe que iria     
para roça.
(    ) Na beira do fogão, coava um café ralo.
(    ) Comprou cartilha, caderno, lápis e tudo mais
(    ) Vinha da cidade para dar aulas.
(    ) Chamava dona Carolina de dona “creolina”.
(    ) Iam para a roça bem cedinho.


4 – Quanto ao personagem principal podemos afirmar que:
           (     ) Era muito levado.
           (     ) Morava na cidade.
           (     ) Gostava de trabalhar.
           (     ) Queria ler revista em quadrinhos.

5 – Leia a passagem do texto:

“Neguito, amanhã cedo cê vai com nóis pra roça. A carestia... a carestia vai obrigar ocê a trabalhar com a gente. Tenho muita pena meu filho, mas acabou a folga da escola.”

Por que Neguito teve que abandonar a escola?

6 – Segundo o texto:
(     ) A escola é importante só para aprender a ler e escrever.
(     ) A escola não tem importância alguma.
(     ) A escola é importante, mas a necessidade de trabalhar é mais forte.
(     ) A escola ensina o trabalho da roça.

Atividade enviada por Valéria Morgana para Professores Solidários.

Aquecimento Global

             Todos os dias acompanhamos na televisão, nos jornais e revistas as catástrofes climáticas e as mudanças que estão ocorrendo, rapidamente, no clima mundial. Nunca se viu mudanças tão rápidas e com efeitos devastadores como tem ocorrido nos últimos anos. A Europa tem sido castigada por ondas de calor de até 40 graus centígrados, ciclones atingem o Brasil (principalmente a costa sul e sudeste), o número de desertos aumenta a cada dia, fortes furacões causam mortes e destruição em várias regiões do planeta e as calotas polares estão derretendo (fator que pode ocasionar o avanço dos oceanos sobre cidades litorâneas). O que pode estar provocando tudo isso? Os cientistas são unânimes em afirmar que o aquecimento global está relacionado a todos estes acontecimentos.
                                                                 (Retirado da revista Veja/2008)
Assinale a única alternativa correta.
1 – O Aquecimento Global é um fenômeno:
(a)   ocasionado pela falta de cuidado do homem para com o nosso planeta.
(b)   o cuidado excessivo que o homem teve com o nosso planeta.
(c)   Deus criou, o homem conservou e a planeta é agradecido.
(d)   um fenômeno natural que o homem nada tem a ver com isso.

2 – São conseqüências do Aquecimento Global:
(a)   o clima normal, a diminuição da quantidade de desertos, as calotas polares continuam perfeitas.
(b)   mudanças de tempo e clima repentino com ondas de calor excessivo, ciclones, desertos aumentando, furacões, calotas polares derretendo.
(c)   Fauna e flora preservadas e a vida do homem mais saudável.
(d)   qualidade de vida melhor com perspectiva de se viver mais.


Atividade enviada por Valéria Morgana para Professores Solidários.

Amor de quatro patas

Foi difícil convencer o pessoal lá de casa, mas bati pé. Eu queria um cachorro. Já tinha até escolhido o nome: Milou. Como o do Tim Tim, jornalista aventureiro das histórias em quadrinhos. Alguém lembrou que o companheiro do meu herói era macho, mas não liguei. Quando cheguei ao canil e falei o nome diante da ninhada, ela correu lamber minha mão e me adotou imediatamente. Aquela era uma autêntica Milou.
Esperei desmamar. Fui buscar um mês depois e levei um susto. Estava magra e pelada, por causa de uma alergia. Não a reconheci, mas ela, sim. Pulou no meu colo e me encheu de beijinhos. Algumas semanas, muitas loções e vitaminas depois, amarrei nos fiapos do topete o primeiro lacinho que seria sua marca registrada.
Desde cedo, a danada mostrou que tinha personalidade. Dava sempre um jeito de conseguir o que queria. Meu marido tinha sido claro: eu poderia manter a cadelinha no apartamento, desde que ficasse dentro dos limites da área de serviço.
Ajeitei seu cestinho ao lado da máquina de lavar. No dia seguinte, passou a ocupar o tapete da cozinha. Uma semana depois, já se refestelava no sofá da sala. Numa noite fria, acordamos com aquela bolinha de pelos aninhada aos nossos pés. Meu marido deu uma bronca. Ela não se abalou: passou a esperar ele dormir para se ajeitar entre os lençóis. Pulava da cama ao primeiro sinal do despertador. Quando ferrava no sono e perdia a hora, era sempre o mesmo teatro. Ele fingia ficar bravo, ela fingia estar arrependida. Apoiava a cabeça nas patinhas cruzadas e olhava de lado, como criança pequena quando faz arte.
Era uma lady. Tomava banho uma vez por semana, sentava na poltrona para assistir TV, engolia remédio e aguentava injeção sem reclamar. Recebia as visitas na porta, passeava sem coleira, ficava sozinha na entrada da padaria enquanto fazíamos compras. Se íamos ao teatro ou ao restaurante, esperava no carro, sem latir nem fazer bagunça. Acho que ela nunca desconfiou que não era gente. Na feira, nas ruas do bairro, entre os conhecidos, fazia o maior sucesso. Todos queriam um filhote seu. Dos sete que teve, seis estão com amigos. Se contarmos os descendentes, deve haver uma centena de Milouzinhas espalhadas por aí. Até meu pai, que nunca gostou de cachorro, se derretia por ela e lhe preparava bifinhos fritos com cebola. Quando nós viajávamos, eram companheiros de solidão. Quem tem um cão por perto nunca se sente sozinho.
Milou veio para ocupar o enorme vazio que os filhos deixaram quando foram cuidar da própria vida. Foi uma época em que meu marido e eu brigamos muito. Quando percebia um de nós triste, ela encostava a cabeça no colo e suspirava, como quem dá o ombro para consolar. Pensamos em nos separar. Meu marido abriria mão de tudo, desde que levasse a cachorra. Alegava que era a única que ficava feliz quando ele voltava para casa.
Conforme a idade vai chegando, a gente pensa mais na vida, fica com o coração mole, acha que não vale a pena se chatear por pequenas coisas, discutir por bobagem. Reconciliamos. Passamos a nos perdoar mais. Entre algumas brigas, chantagens emocionais e muitos xixis no tapete, vivemos os três felizes. Achamos que seria para sempre.
Cães não duram tanto. Ficou velhinha, doente. Apesar das muitas cirurgias, o mal continuava a crescer dentro dela. Ainda fazia festa e corria a buscar a bola quando chegávamos. Mas logo perdia o fôlego e ia deitar no seu cantinho. A Conceição, que trabalha conosco e de quem ficou grande amiga, se desdobrava para fazer seus pratos prediletos. Ela rejeitava. Já não queria se alimentar.
Alguém sugeriu sacrificá-la. Fui covarde. Deixei que seus últimos momentos fossem sofridos, os remédios não faziam mais efeito. Ela já quase não reagia. Apesar da respiração ofegante e do coração fraquinho, ronronou de prazer como um gato enquanto acariciava sua orelha na última noite em que a velei. Esperou eu adormecer para partir.
Ajeitamos seu corpo, vazio de lambidas e carinhos, numa caixa branca, junto com a almofada e os brinquedos prediletos. Enterramos ao pé do salgueiro-chorão, que plantei num gramado em homenagem à lembrança do meu pai.
A casa está escura e silenciosa. Sei que há muitas histórias tristes nesse mundo. Guerras, doenças, humilhações, crianças sem teto, comida e afeto. Parece até ridículo sentirmos tanto a sua ausência.
Mas a relação com um cão é bem menos complicada do que entre seres humanos. Mesmo com nossos filhos e melhores amigos, é preciso ter cuidado com as palavras, passar por cima de inquietudes como inveja, ciúme e ingratidão. Temos de suportar injustiças para não nos sentir mais sós do que de fato estamos. Entre humanos, é difícil não magoar nem ser magoado.
Já um cão não guarda rancores nem ressentimentos. Perdoa nossas piores falhas, até mesmo as de caráter, porque não faz julgamentos. O cão é fiel a quem ama. E esse é o único amor incondicional.
Lucia Sauerbronn


Texto enviado por Valéria Morgana para Professores Solidários.

Lilibel


         Era uma vez uma garota chamada Lilibel.
            E para começar a rimar, eu vou dizer que ela tinha os olhos cor de mel.
            Desenhar bem, pintar sem deixar vazar, cantar sem desafinar nada ela fazia. Seu terror eram as aulas de Geometria. Diziam que sua letra era um garrancho sem fim.
            Às vezes tinha nota vermelha no boletim. Era uma menina comportada. Alguns diziam que ela era muito calada.
            Tinha medo de água, dos meninos e do professor de Matemática. Adorava a professora de Português, uma senhora muito simpática.
            Lilibel achava que era muito feia muito branca e baixinha.
            Na hora do recreio, se não viessem chamá-la para brincar ela ficava sozinha. Aparelho nos dentes foi obrigada a usar.
            Sorria amarelo prateado quando lhe perguntavam como faria para beijar.
            Havia um garoto, o Guto, que achava lindo. Mas ele não lhe dava bola, estivesse indo ou vindo.
            O sonho de Lilibel era ser uma gatinha linda de doer. Dia e noite se perguntava: Quando isso vai acontecer?
            O tempo passou e as coisas começaram a mudar. É que Lilibel descobriu que todo mundo na classe também tinha do que se queixar.
            A sua melhor amiga tinha medo do trovão.
            O garoto mais sabido ficava horrível de calção. A colega da carteira ao lado era meio gordinha. E o garoto de trás, um tampinha. Depois dessa constatação, sempre que olhava no espelho, ela dizia:
            Eu sou uma gatinha.
         O Estado de São Paulo. 7/10/95. Lúcia Tulchinski.


1.   Após a leitura do texto responda as seguintes questões:
         Numere a 2ª coluna de acordo com a primeira de acordo com o significado:
  1. Rimar
____ deixar a pintura sair do limite.
  1. Vazar
____ Pessoa pequena.
  1. Geometria
____ dar atenção.
  1. Dar bola
____ parte da matemática.
  1. Tampinha
____ encontrar palavras que tenham o mesmo som final.
                                      

      2. Interpretando o texto:
a)No texto o narrador, faz uma descrição detalhada da personagem principal. Escreva 4 características de Lilibel segundo o texto:
    b)O texto destaca os medos e temores de Lilibel. Cite-os.

No final do texto Lilibel mudou de opinião a seu respeito?  Justifique.

c)    Que descoberta Lilibel fez segundo o texto?

Explique com suas palavras o que quer dizer a afirmação: “Ninguém é perfeito”.

d)    O que podemos aprender com a história deste texto? Que lições podem ser retiradas? Fale pelo menos uma.
e)    Você tem alguma coisa em sua aparência ou mesmo seu jeito que não gosta e  gostaria de modificar? Explique.

f)     Se Você tivesse um amigo chateado com a própria aparência e só reparasse nos próprios defeitos.Que faria para ajudá-lo?

Atividade enviada por Valéria Morgana para Professores Solidários.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

O Nariz


Era um dentista, respeitadíssimo. Com seus quarenta e poucos anos, uma filha quase na faculdade. Um homem sério, sóbrio, sem opiniões surpreendentes, mas uma sólida reputação como profissional e cidadão. Um dia, apareceu em casa com um nariz postiço. Passado o susto, a mulher e a filha sorriram com fingida tolerância. Era um daqueles narizes de borracha com óculos de aros pretos, sobrancelhas e bigodes que fazem a pessoa ficar parecida com o Groucho Marx. Mas o nosso dentista não estava imitando o Groucho Marx. Sentou–se à mesa do almoço – sempre almoçava em casa – com a retidão costumeira, quieto e algo distraído. Mas com um nariz postiço.
c
TD: Grouxo Marx – Comediante americano que se caracterizou
                                   pela irreverência e pelo humor inteligente.

– O que é isso? – perguntou a mulher depois da salada, sorrindo menos.
            – Isso o quê?
– Esse nariz.
 – Ah. Vi numa vitrina, entrei e comprei.
            – Logo você, papai...
            Depois do almoço, ele foi recostar–se no sofá da sala, como fazia todos os dias. A mulher impacientou–se.
– Tire esse negócio.
            – Por quê?
            – Brincadeira tem hora.
            – Mas isto não é brincadeira.
            Sesteou com o nariz de borracha para o alto. Depois de meia hora, levantou–se e dirigiu–se para a porta. A mulher o interpelou.
            – Aonde é que você vai?
            – Como, aonde é que eu vou? Vou voltar para o consultório.
            – Mas com esse nariz?
            – Eu não compreendo você – disse ele, olhando–a com censura através dos aros sem lentes. – Se fosse uma gravata nova você não diria nada. Só porque é um nariz...
            – Pense nos vizinhos. Pense nos cliente.
            Os clientes, realmente, não compreenderam o nariz de borracha. Deram risadas (“Logo o senhor, doutor...”) fizeram perguntas, mas terminaram a consulta intrigados e saíram do consultório com dúvidas.
– Ele enlouqueceu?
            – Não sei – respondia a recepcionista, que trabalhava com ele há 15 anos. – Nunca vi ele assim.
            Naquela noite ele tomou seu chuveiro, como fazia sempre antes de dormir. Depois vestiu o pijama e o nariz postiço e foi se deitar.
            – Você vai usar esse nariz na cama? – perguntou a mulher.
            – Vou. Aliás, não vou mais tirar esse nariz.
            – Mas, por quê?
– Por que não?
            Dormiu logo. A mulher passou metade da noite olhando para o nariz de borracha. De madrugada começou a chorar baixinho. Ele enlouquecera. Era isto. Tudo estava acabado. Uma carreira brilhante, uma reputação, um nome, uma família perfeita, tudo trocado por um nariz postiço.
– Papai...
            – Sim, minha filha.
            – Podemos conversar?
            – Claro que podemos.
            – É sobre esse nariz...
            – O meu nariz outra vez? Mas vocês só pensam nisso?
 – Papai, como é que nós não vamos pensar? De uma hora para outra um homem como você resolve andar de nariz postiço e não quer que ninguém note?
            – O nariz é meu e vou continuar a usar.
            – Mas, por que, papai? Você não se dá conta de que se transformou no palhaço do prédio? Eu não posso mais encarar os vizinhos, de vergonha. A mamãe não tem mais vida social.
            – Não tem porque não quer...
            – Como é que ela vai sair na rua com um homem de nariz postiço?
            – Mas não sou “um homem”. Sou eu. O marido dela. O seu pai. Continuo o mesmo homem. Um nariz de borracha não faz nenhuma diferença.
 – Se não faz nenhuma diferença, então por que usar?
            – Se não faz diferença, porque não usar?
            – Mas, mas...
            – Minha filha...
            – Chega! Não quero mais conversar. Você não é mais meu pai!
            A mulher e a filha saíram de casa. Ele perdeu todos os clientes. A recepcionista, que trabalhava com ele há 15 anos, pediu demissão. Não sabia o que esperar de um homem que usava nariz postiço. Evitava aproximar–se dele. Mandou o pedido de demissão pelo correio. Os amigos mais chegados, numa última tentativa de salvar sua reputação, o convenceram a consultar um psiquiatra.
            – Você vai concordar – disse o psiquiatra, depois de concluir que não havia nada de errado com ele – que seu comportamento é um pouco estranho...
            – Estranho é o comportamento dos outros! – disse ele. – Eu continuo o mesmo. Noventa e dois por cento de meu corpo continua o que era antes. Não mudei a maneira de vestir, nem de pensar, nem de me comportar, Continuo sendo um ótimo dentista, um bom marido, bom pai, contribuinte, sócio do Fluminense, tudo como era antes.
            – Mas as pessoas repudiam todo o resto por causa deste nariz. Um simples nariz de borracha. Quer dizer que eu não sou eu, eu sou o meu nariz?
            – É... – disse o psiquiatra. – Talvez você tenha razão...
Luis Fernando Veríssimo

            O que é que você acha, leitor? Ele tem razão? Seja como for, não se entregou. Continua a usar nariz postiço. Porque agora não é mais uma questão de nariz. Agora é uma questão de princípios.
1)     No início da história, a filha e a esposa do dentista chegaram a rir do nariz de borracha. Por que aquele nariz era motivo de riso, naquele momento?
Esse tipo de nariz de borracha é uma espécie de brinquedo. No início, o fato de o homem usar um nariz de borracha era divertido; era mesmo uma brincadeira e todos achavam que ele tiraria o nariz em breve.
2)     O nariz transformou-se em um problema. Segundo a visão da filha do dentista, por que o nariz tornou-se um problema?
O nariz tornou-se um problema porque, depois de perceber que a proposta do pai de usar permanentemente o nariz era real, a filha entendia que o pai se tornara o palhaço do prédio e que ela e a mãe passariam vergonha diante das outras pessoas.
3)     Que argumentos o dentista utilizava para provar que o nariz NÃO era um problema?
O dentista insistia na ideia de que ele não mudara em nada. Um simples nariz não tirava dele o homem que ele era: honesto, trabalhador, honrado.
4)     Observe os verbos destacados no trecho a seguir:
A mulher e a filha saíram de casa. Ele perdeu todos os clientes. A recepcionista que trabalhava com ele há 15 anos pediu demissão. (...) Os amigos mais chegados, numa última tentativa de salvar sua reputação, o convenceram a consultar um psiquiatra.
a)     Qual é o tempo dos verbos destacados?
Os verbos destacados estão conjugados no pretérito.
b)     Quais são os verbos que estão flexionados nas formas de PLURAL?
Os verbos que estão flexionados no plural são: SAÍRAM e CONVENCERAM.
c)      Reescreva as frases, de modo que os verbos sejam flexionados na primeira pessoa do plural. Faça as modificações necessárias para que as frases tenham sentido.
·        A mulher e a filha saíram de casa.
·        Nós saímos de casa.
·        Ele perdeu todos os clientes.
·        Nós perdemos todos os clientes.
·        A recepcionista pediu demissão.
·        Nós pedimos demissão.
5)     Observe atentamente esse outro trecho e os verbos destacados.
Era um dentista, respeitadíssimo. Com seus quarenta e poucos anos, uma filha quase na faculdade. Um homem sério, sóbrio, sem opiniões surpreendentes, mas uma sólida reputação como profissional e cidadão. Um dia, apareceu em casa com um nariz postiço.
Os dois verbos estão flexionados no PASSADO.
·        Qual deles nos traz a ideia de que a ação ou o estado se prolonga no tempo?
A forma verbal que traz a ideia de que o estado se prolonga no tempo é ERA.
6)     A- Grife de azul, no texto, um trecho em que a voz de um personagem é apresentada por meio do DISCURSO DIRETO. Há várias possibilidades. Reproduzimos, a seguir, alguns trechos que poderiam ser possíveis respostas.
– Isso o quê?  (Dentista)
– Esse nariz.  (Filha do dentista)
 – Ah. Vi numa vitrina, entrei e comprei.  (Dentista)
 – Logo você, papai...  (Filha do dentista)
B- Reescreva o trecho, apresentando essa voz por meio do DISCURSO INDIRETO. Faça as adaptações que forem necessárias para inserir a voz do narrador.
A construção do discurso indireto foi feita em relação à frase destacada na questão anterior.
O dentista respondeu que tinha visto os óculos numa vitrina e que havia entrado e comprado.
7)     No final do texto, o narrador deixa um convite ao leitor: “O que é que você acha, leitor? Ele tem razão?”
Escreva um pequeno texto apresentando a sua opinião e argumentando para defender sua posição. (O(A) professor(a) entregará a você uma folha de papel almaço para a produção do texto.)
(CRITÉRIOS PARA A AVALIAÇÃO DESTA QUESTÃO: O aluno deixou clara a sua posição? Apresentou argumentos coerentes com a posição defendida? Escreveu o texto com clareza de idéias? Utilizou marcas de pontuação adequadamente? Utilizou a escrita ortográfica?)
Resposta pessoal.
Atividade enviada por David Andrade para Professores Solidários.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Plebiscito


 A cena passa-se em 1890. A família está toda reunida na sala de jantar.
O Senhor Rodrigues palita os dentes, repimpado numa cadeira de balanço. Acabou de comer como um abade.
Dona Bernardina, sua esposa, está muito entretida a limpar a gaiola de um canário belga.
Os pequenos são dois, um menino e uma menina. Ela distrai-se a olhar para o canário. Ele, encostado à mesa, os pés cruzados, lê com muita atenção uma das nossas folhas diárias.
Silêncio.
De repente, o menino levanta a cabeça e pergunta:
- Papai, que é plebiscito?
O senhor Rodrigues fecha os olhos imediatamente para fingir que dorme.
O pequeno insiste:
- Papai?
Pausa.
- Papai?
Dona Bernardina intervém:
-Ó Seu Rodrigues, Manduca está lhe chamando. Não durma depois do jantar que lhe faz mal.
O Senhor Rodrigues não tem remédio senão abrir os olhos.
- Que é que vocês desejam?
- Eu queria que papai me dissesse o que é plebiscito.
- Ora essa, rapaz! Então tu vais fazer doze anos e não sabes ainda o que é plebiscito?
- Se soubesse não perguntava.
O Senhor Rodrigues volta-se para Dona Bernardina, que continua muito ocupada com a gaiola:
- Ó senhora, o pequeno não sabe o que é plebiscito!
- Não admira que ele não saiba, porque eu também não sei.
- Que me diz?! Pois a senhora não sabe o que é plebiscito.”
- Nem eu, nem você; aqui em casa ninguém sabe o que é plebiscito.
- Ninguém, alto lá! Creio que tenho dado provas de não ser nenhum ignorante!
- A sua cara não me engana. Você é muito prosa. Vamos: se sabe, diga o que é plebiscito! Então? A gente está esperando! Diga!...
- A senhora o que quer é enfezar-me!
- Mas, homem de Deus, para que você não há de confessar que não sabe'? Não é nenhuma vergonha ignorar qualquer palavra. Já outro dia foi a mesma coisa quando manduca lhe perguntou o que era proletário. Você falou, e o menino ficou sem saber!
- Proletário - acudiu o Senhor Rodrigues - é o cidadão pobre que vive do trabalho mal remunerado.
- Sim, a ora sabe porque foi ao dicionário; mas dou-lhe um doce, se me disser o que é plebiscito sem se arredar dessa cadeira!
- Que gostinho tem a senhora em tornar-me ridículo na presença destas crianças!
- Oh! Ridículo é você mesmo quem se faz. Seria tão simples dizer: "Não sei, Manduca, não sei o que é plebiscito; vá buscar o dicionário, meu filho".
O Senhor Rodrigues ergue-se de um ímpeto e brada:
- Mas se eu sei!
- Pois se sabe, diga!
- Não digo para não me humilhar diante de meus filhos. Não dou o braço a torcer! Quero conservar a força moral que devo ter nesta casa! Vá para o diabo!
E o Senhor Rodrigues exasperadíssimo, nervoso, deixa a sala de jantar e vai para o seu quarto, batendo violentamente a porta.
No quarto havia o que ele mais precisava naquela ocasião: algumas gotas de água de flor de laranja e um dicionário...
A menina toma a palavra:
- Coitado de papai! Zangou-se logo depois do jantar! Dizem que é tão perigoso!
- Não fosse tolo - observa Dona Bernardina - e confessasse francamente que não sabia o que é plebiscito!
- Pois sim - acode Manduca, muito pesaroso por ter sido o causador involuntário de toda aquela discussão - , pois sim, mamãe, chame papai e façam as pazes.
- Sim! Sim! Façam as pazes! - diz a menina em tom meigo e suplicante. - Que tolice! Duas pessoas que se estimam tanto zangarem-se por causa do plebiscito!
Dona Bernardina dá um beijo na toalha, e vai bater à porta do quarto:
- Seu Rodrigues, venha sentar-se; não vale a pena zangar-se por tão pouco.
O negociante espera a deixa. A porta abre-se imediatamente. Ele entra, atravessa a casa, e vai sentar-se na cadeira de balanço.
- É boa! - brada o Senhor Rodrigues depois de largo silêncio. - É muito boas Eu! Eu ignorar a significação da palavra plebiscito! Eu!...
 
A mulher e os filhos aproximam-se dele.
O homem continua num tom profundamente dogmático:
- Plebiscito...
E olha para todos os lados a ver se há por ali mais alguém que possa aproveitar a lição.
- Plebiscito é uma lei decretada pelo povo romano, estabelecido em comícios.
- Ah! - suspiraram todos, aliviados.
- Uma lei romana, percebem? E querem introduzi-la no Brasil! É mais um estrangeirismo!...

Apesar de a República ter sido proclamada em 1889, alguns políticos queriam que, antes da convocação do Congresso Constituinte de 1891, fosse feito um plebiscito sobre a forma de governo a ser adotada pelo país.
                                                                                               Artur Azevedo


Interpretação de fatos contidos no texto

01. Todas as afirmativas abaixo estão de acordo com o texto, exceto:
    
     (   ) O fato aconteceu após o jantar.
     (   ) A família era composta por Senhor Rodrigues, Dona Bernardina, Manduca e sua irmã
     (X ) O fato aconteceu no ano em que foi proclamada a república no Brasil.
     (   ) Todos estavam na sala de jantar quando o menino perguntou o que era plebiscito.

02. Leia a afirmativa abaixo:

     Senhor Rodrigues questionava o filho e a esposa por não saberem o que era plebiscito, porém não revelava o significado da palavra.

a)       Qual a opinião de Dona Bernardina sobre a atitude do marido?

       Resposta: Dona Bernardina acha que o marido estava enrolando para responder, porque não sabe a resposta.

b)       Você concorda com  a opinião de Dona Bernardina? Justifique sua resposta.

       Resposta: Pessoal

03. No texto a esposa e o marido procuram defender suas opiniões. Para isso usaram argumentos, ofensas, chantagens e ameaças.
     Numere a 2ª Coluna de acordo com a 1ª classificando os trechos abaixo de acordo com o tipo de defesa pelos personagens.

(1)       Argumento
(2)       Chantagem
(3)       Ameaça
(4)       Ofensas

(4) “- Ora essa, rapaz! Então tu vais fazer doze anos e não sabes ainda o que é plebiscito?!”
(1) “- Não admira que ele não saiba, porque eu também não sei.”
(3) “- Vamos: se sabe, diga o que é plebiscito! Então? A gente está esperando! Diga!...
(2) “- ...dou-lhe um doce, se me disser o que é plebiscito sem se arrendar dessa cadeira!”
(4) “Oh! Ridículo é você mesmo que se faz . Seria tão simples dizer...”
(2) “- Não digo para não me humilhar diante de meus filhos.”

Interpretação de fatos contidos no texto

04. Leia a afirmativa:
    
     Após a discussão, senhor Rodrigues retirou-se para o quarto.

     Agora responda:

a)       Qual foi a verdadeira intenção do personagem ao ir para o quarto?

       Resposta: Senhor Rodrigues se retirou para poder consultar o dicionário.

b)       O que fez Dona Bernardina chamá-lo de volta para a sala?

       Resposta: Os filhos pediram que ela fizesse as com o marido.

c)       Qual a reação dos personagens quando Senhor Rodrigues revelou o que é plebiscito? Por que reagiram dessa forma?

       Resposta: Os personagens ficaram aliviados com a revelação. Reagiram assim porque a discussão tinha terminado.

05. Assinale com um (X), a alternativa que melhor resume a mensagem que o texto quer transmitir:

     (   ) Para os filhos os pais sabem tudo.
     (   ) A vida é uma aprendizagem constante.
     (X ) Não há vergonha em dizer que não sabe, o importante é buscar a resposta.
     (   ) Aprender é uma busca diária de respostas.
     (   ) Pequenos conflitos acontecem nas melhores famílias.

fato – causas – conseqüências - circunstâncias

6. Leia o fato abaixo:
    
     FATO: O Senhor Rodrigues fingiu que estava dormindo.

     CAUSA: Resposta: Fingia não escutar a pergunta do filho.

     CONSEQÜÊNCIA: Resposta: Dona Bernardina chama a atenção do marido

                      Atividade enviada por David Andrade para Professores Solidários.